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Nada te perturbe
Nada te espante
Tudo passa,
Só Deus não muda.
A paciência
Tudo alcança
Quem tem a Deus,
Nada lhe falta.
Só Deus basta.
santa teresa de avila
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“toma e lê, toma e lê!!! “
Mesmo desiludido, Agostinho, não se afastou totalmente do maniqueísmo e esperou até encontrar algo que sanasse seu desejo pela verdade.
“Com efeito, não encontrando solução melhor, decidira contentar-me temporariamente com ela, até encontrar algo mais claro que merecesse ser abraçado” Confissões.
Agostinho deixou Cartago e foi ensinar em Roma. Soube que lá os alunos tinham mais interesse em aprender e respeitavam os seus mestres, isto foi um dos principais motivos para sua mudança, além também do estimulo dado pelos amigos que prometiam que lá ele ganharia bem mais e seria mais respeitado.
Em Roma começou a ensinar retórica e aos poucos foi ficando conhecido graças a seus alunos. Mas os estudantes romanos, apesar das qualidades que ele desejava encontrar e que realmente possuíam, tinham um defeito que para Agostinho era imperdoável, costumavam trocar de professor com certa Constancia para não pagar pelas aulas. Ao saber que Milão tinha pedido que Roma os enviasse um professor de retórica, Agostinho falou com alguns amigos e conseguiu o emprego em Milão.
Ambrósio era bastante conhecido pelos seus discursos, e logo Agostinho decidiu acompanhar seus discursos para averiguar sua eloqüência e para ver se merecia toda esta fama e ver. Agostinho se impressionou com a eloqüência com a qual Ambrósio falava e não se preocupou com seu conteúdo.
“Eu me encantava com a suavidade de seu modo de discursar; era mais profundo, embora menos jocoso e agradável que o de Fausto quanto a forma. A respeito do conteúdo, porém, não era possível qualquer comparação: perdia-se esse último entre as falsidades dos maniqueus, ao passo que o outro ensinava a doutrina mais sadia da salvação”Confissões.
“Seus discursos eram sempre dirigidos ao que era essencial e determinante para a vida prática; eram simples e realistas em vez de eruditos, mas sem perder de vista a plena integridade do homem” Campenhausen, H. Von, Os Pais da Igreja, Pág. 251.
Ambrósio foi consagrado Bispo no final do ano de 374. Foi eleito de forma um tanto que inesperada: enquanto os nicenos e os arianos tentavam fazer com que seus favoritos fossem escolhidos para bispo de Milão após a morte de Auxentio, Ambrósio tentava fazer com que não houvesse mais brigas entre esses dois grupos e acabou sendo eleito para o cargo.
Sua inteligência e simplicidade encantavam Agostinho, que, como vemos na sua obra Confissões, foi muito influenciado por este bispo por quem tinha muita admiração. Assistindo os sermos de Ambrósio, aos poucos Agostinho foi percebendo que o que antes havia atacado com veemência agora não parecia ser tão errado, viu que a fé católica era diferente do que ele imaginava.
Com sua dúvida ainda existente, Agostinho abandona as idéias e a seita maniqueísta. Embora não tenha virado cristão imediatamente, o fato de ter deixado de ser maniqueísta alegrou muito sua mãe, Mônica.
“Assim, duvidando de tudo, à maneira dos acadêmicos – como se imagina comumente – flutuando entre todas as doutrinas, resolvi abandonar os maniqueus” Confissões.
O foi medo que fez com que Agostinho não se convertesse imediatamente ao cristianismo. Ele não queria cometer o mesmo erro que cometeu com o maniqueísmo, e resolveu que deveria esperar até que estivesse totalmente seguro de que esta era o caminho a ser seguido.
“Parecia-me, nesse momento de dúvida, que não devia permanecer nessa seita, que eu colocava em plano inferior a alguns filósofos, se bem que recusasse terminantemente confiar a seus cuidados a fraqueza da minha alma, por ignorarem eles o nome de Cristo. Resolvi então permanecer como catecúmeno na Igreja católica, conforme o desejo de meus pais, até que alguma certeza viesse apontar-me o caminha a seguir” Confissões.
Até ser batizado, na Páscoa de 387, Agostinho estudou a fé católica, assistiu a diversos sermões de Ambrósio, ficou sabendo de histórias de outras pessoas que antes se posicionavam contra a igreja, e agora tinham sido batizadas. Quanto mais ele conhecia, mas ele via que tinha encontrado a verdade. Porém, ainda hesitava em ser batizado, pois tinha medo de abandonar as vontades da carne.
Como havia participado da seita maniqueísta durante muitos anos, e conhecia bem sua filosofia e como eles atacavam a igreja católica, Agostinho começou a revidar os ataques maniqueus da mesma forma que estes atacavam a igreja. Usou a própria filosofia maniqueísta para desmenti-los. Em seu livro Confissões ele dedica alguns dos capítulos para atacar os maniqueístas, como no capítulo “Contra os maniqueus”Confissões. onde ele fala sobre a dualidade maniqueísta onde a pessoa sempre tem duas opções para escolher, uma boa e outra má, nunca duas boas ou duas más.
Ainda indeciso sobre qual rumo tomar em sua vida, se deveria ou não se entregar totalmente à fé cristã. Seu espírito se consumia cada vez mais com esta incerteza, e então pediu que Deus o mostrasse o caminha ao qual deveria tomar:
“E tu, Senhor, até quando? Até quando continuarás irritado? Não te lembres de nossas culpas passadas! Sentia-me ainda preso ao passado, e por isso gritava desesperadamente: ‘Por quanto tempo, por quanto tempo direi ainda: amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora à minha indignidade?”Confissões.
“Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne (Romanos 13, 13)” Confissões.
Depois disto, todas os seus medos e incertezas passaram e ele finalmente resolveu que iria ser batizado. O batismo levou alguns meses para acontecer, mas durante este tempo Agostinho aprofundou seus conhecimentos sobre o catolicismo e foi passar um tempo numa propriedade de seu amigo Verecundo. Pediu que Ambrósio o indicasse algum livro, e este o indicou o livro de Isaías.
“Agostinho entregou-se a essa leitura, mas era um pão duro para os seus dentes… de leite. Continuou então com as cartas de São Paulo. O convertido do caminho de damasco era cioso do convertido sob a figueira de Milão!” CREMONA, Carlo, Agostinho de Hipona, A razão e a fé; editora Vozes, 1990, Petrópolis – RJ. Pág. 110.
Antes de partir ele havia abandonado sua cadeira de retórica, ele achou que não mais deveria ser um “comerciante de tagarelices” Confissões.
Em Cassiciaco, Agostinho começou a “sentir o gosto” da vida monástica. Produziu bastantes obras nesta época, alguns dos seus Diálogos foram feitos e copiados nestes meses que passou na casa de Verecundo com seu filho, sua mãe e vários amigos.
Eles foram batizados no dia 24 de abril de 387, em Milão, pelo bispo desta cidade, Ambrósio, que foi um dos responsáveis pela a conversão de Agostinho.
Mônica ficou muito feliz ao ver seu filho ser batizado, há muito anos ela rezava para que seu filho se tornasse católico, e muito ao ver seu filho batizado ficou realizada.
Pouco após ser batizado, Agostinho decidiu que deveria voltar a Tagaste com sua família, e então partiram de Milão. Ao chegar em Óstia, ficaram sem poder continuar viagem por causa do mau tempo, e então decidiram permanecer ali, até poderem viajar.
Em Óstia, Mônica e Agostinho tiveram um encontro místico onde tentaram descobrir a verdade sobre Deus. Neste dia, enquanto conversavam Mônica revelou a agostinho que não mais possuía desejo de viver.
“Meu filho, nada mais me atrai nesta vida; não sei o que estou fazendo ainda aqui, nem porque ainda estou aqui. Já se acabou toda esperança terrena. Por um só motivo desejava prolongar minha vida nesta terra: ver-te católico antes de eu morrer”. Confissões.
Poucos dias após isso, Mônica caiu de cama com febre, perdeu os sentidos algumas vezes. Seu estado de saúde era muito grave, e poucos dias depois veio a falecer. Seu funeral foi realizado em Óstia mesmo, longe do corpo de seu marido que se encontrava em Tagaste.
Depois de um tempo Adeodato também morre, e Agostinho passa a se dedicar cada vez mais à igreja. Em 391 torna-se sacerdote na cidade de Hipona e mais tarde torna-se bispo da mesma.
Em 391 ele foi ordenado sacerdote em Hipona (hoje Annaba, na Argélia). Em 396 foi eleito bispo coadjutor de Hipona (auxiliar, com o direito de sucessão depois da morte do bispo corrente) e pouco depois bispo principal. Ele permaneceu nessa posição em Hipona até sua morte em 430.
Ele deixou o seu mosteiro, mas continuou a levar uma vida monástica na residência episcopal.Ele deixou uma regra (latim, regulamentos) para seu mosteiro que o levou ser designado o “santo padroeiro do clero regular”, isto é, sacerdotes que vivem por uma regra monástica.
Sua vida foi registrada pela primeira vez por seu amigo São Possídio, bispo de Calama, no seu Sancti Augustini Vita. Descreveu-o como homem de poderoso intelecto e um enérgico orador, que em muitas oportunidades defendeu a fé católica contra todos os detratores.
Possídio também descreveu traços pessoais de Agostinho com detalhe, desenhando um retrato de um homem que comia com parcimónia, trabalhou incansavelmente, desprezando fofocas, rejeitadando as tentações da carne, e que exerceu a prudência na gestão financeira conforme sua posição e autoridade de bispo.
perolas de s.Agostinho
Em certos momentos pode-se ler sua alma: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu fora. Estavas comigo e não eu contigo. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti. Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz. Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em Ti”. Releia em voz alta. Perceba que há sonoridade, arte…
Há muitas outras frases maravilhosas de Santo Agostinho. Que merecem ser conhecidas. Fazem bem para o espírito e para o ouvido. Como:
- “O rico enche a bolsa de moedas e a alma de preocupação”;
- “Geralmente suspeitamos dos demais o que sentimos em nós”;
- “Ninguém consegue erguer outro alguém a seu próprio nível a não ser que ele próprio desça até o nível do outro”.
Pouco antes da morte de Agostinho, a África romana foi invadida pelos Vândalos, uma tribo guerreira com simpatias com o Arianismo. Pouco depois de Hipona ser cercada pelos bárbaros Agostinho adoeceu; Possídio relata que ele gastou seus últimos dias em oração e penitência, pedindo para que os Salmos penitenciais de Davi fossem pendurados em sua parede para que ele pudesse ler. Pouco tempo após sua morte, os Vândalos levantaram o cerco de Hipona, mas não muito tempo depois eles voltaram e queimaram a cidade. Eles destruíram tudo, mas a catedral de Agostinho e a biblioteca ficaram inalteradas.
Agostinho foi canonizado e reconhecido como um Doutor da Igreja.
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Atanásio – Santo e Doutor da Igreja
Atanásio foi, sem dúvida, um dos Padres da Igreja antiga mais importantes e venerados. Mas, sobretudo, este grande santo é o apaixonado teólogo da encarnação do «Logos», o Verbo de Deus que, como diz o prólogo do quarto Evangelho, «se fez carne e pôs sua morada entre nós» (João 1, 14).
Precisamente por este motivo, Atanásio foi também o mais importante e tenaz adversário da heresia ariana, que então era uma ameaça para a fé em Cristo, reduzido a uma criatura «intermédia» entre Deus e o homem, segundo uma tendência que se repete na história e que também hoje constatamos de diferentes maneiras.
Nascido provavelmente em Alexandria, no Egito, por volta do ano 300, Atanásio recebeu uma boa educação antes de converter-se em diácono e secretário do bispo da metrópole egípcia, Alexandro.
Próximo colaborador de seu bispo, o jovem eclesiástico participou com ele do Concílio de Nicéia, o primeiro de caráter ecumênico, convocado pelo imperador Constantino em maio do ano 325 para assegurar a unidade da Igreja. Os Padres de Nicéia puderam deste modo discutir várias questões, principalmente o problema originado alguns anos antes pela pregação do presbítero de Alexandria, Ário.
Este, com sua teoria, ameaçava a autêntica fé em Cristo, declarando que o «Logos» não era verdadeiro Deus, mas um Deus criado, um ser «intermédio» entre Deus e o homem e deste modo o verdadeiro Deus sempre permanecia inacessível para nós. Os bispos, reunidos em Nicéia, responderam redigindo o «Símbolo da fé», que completado mais tarde pelo primeiro Concílio de Constantinopla, permaneceu na tradição das diferentes confissões cristãs e na liturgia como o «Credo niceno-constantinopolitano».
Neste texto fundamental, que expressa a fé da Igreja sem divisão, e que ainda recitamos hoje, todo domingo, na celebração eucarística, aparece o termo grego «homooúsios», em latim «consubstantialis»: indica que o Filho, o «Logos», é «da mesma natureza» do Pai, é Deus de Deus, é sua natureza, e deste modo se sublinha a plena divindade do Filho, que era negada pelos arianos.
Fonte:sucessão a apostólica
26/03/2008 00:00:02
Patrística – Didaque – Parte I
“DOUTRINA DOS DOZE APÓSTOLOS” – Parte I
Primeiro documento utilizado na catequese do século I. Teve várias redações, que definem as etapas da catequese para os missionários no meio judeu-cristão.
Possui uma parte doutrinária e outra litúrgica.
Introdução (Didaqué) do Senhor aos gentios.
Capítulo I – Amor a Deus e ao próximo
Os dois caminhos: o da vida exige o amor a Deus e ao próximo
1 – Há dois caminhos: um da vida e outro da morte [Cf Jer 21,8; Dt 5,32s; 11,26-28; 30,15-20; Ecli 15,15-17]. A diferença entre ambos é grande.
2 – O caminho da vida é, pois, o seguinte: primeiro amarás a Deus que te fez; depois a teu próximo como a ti mesmo [Cf Dt 6,5; 10,12s; Ecli 7,30; Lev 19,18; Mt 22,37]. E tudo o que não queres que seja feito a ti, não o faças a outro [Cf Mt 7,12; Lc 6,31].
3 – Eis a doutrina relativa a estes mandamentos: Bendizei aqueles que vos amaldiçoam, orai por vossos inimigos, jejuai por aqueles que vos perseguem. Com efeito, que graça vós tereis, se ama is os que vos amam? Não fazem os gentios o mesmo? Vós, porém, amai os que vos odeiam e não tenhais inimizade [Cf Mt 5,44s; Lc 6,27s; 6,32s].
4 – Abstém-te dos prazeres carnais [Cf 1Ped 2,11]. Se alguém te bate na face direita, dá-lhe também a outra e tu serás perfeito. Se alguém te obrigar a mil (passos), anda dois mil com ele. Se alguém tomar teu manto, dá-lhe também tua túnica. Se alguém toma teus bens, não reclames, pois de todo o jeito não podes [Cf Mt 5,39ss; Lc 6,29].
5 – Dá a todo aquele que te pedir, sem exigir devolução. Pois a vontade do Pai é que se dê dos seus próprios dons. Bem-aventurado é aquele que dá conforme a lei, pois é irrepreensível. Ai daquele que toma (recebe)! Se, porém, alguém tiver necessidade de tomar (receber), é isento de culpa. Mas se não estiver em necessidade, terá que se responsabilizar pelo motivo e pelo fim por que recebeu. Colocado na prisão, ele não sairá de lá, até ter pago o último quadrante (vintém) [Mt 5,25s; Lc 12,58s].
6 – Mas é verdade que a este propósito também foi dito: Que tua esmola sue em tuas mãos, até que souberes a quem dar [Cf Ecli 12,1].
Capítulo II – Deveres para com a vida (aborto)
Dos deveres para com a vida e a propriedade do próximo
1 – O segundo mandamento da Instrução (Didaqué) é:
2 – Não matarás, não cometerás adultério; não te entregarás à pederastia, não fornicarás, não furtarás, não exercerás magia, nem bruxaria (charlatanice). Não matarás criança por aborto, nem criança já nascida; não cobiçarás os bens do próximo.
3 – Não serás perjuro [Cf Mt 5,33; Ex 20,7], nem darás falso testemunho; não falarás mal do outro, nem lhe guardarás rancor.
4 – Não usarás de ambigüidade nem no pensamento nem na palavra, pois a duplicidade é uma trama fatal [Cf Prov 21,6].
5 – Tua palavra não seja falsa, nem vã; mas, ao contrário, seja cheia de sinceridade e seriedade (comprovada pela ação).
6 – Não serás cobiçoso nem rapace, nem hipócrita, nem malicioso, nem soberbo. Não nutrirás má intenção contra teu próximo [Cf Ex 20,13-17; Dt 5,17-21].
7 – Não odiarás ninguém, mas repreenderás uns e rezarás por outros, e ainda amarás aos outros mais que a ti mesmo (que tua alma).
Capítulo III – Contra a paixão e idolatria
Advertências contra a paixão e a idolatria
1 – Meu filho, evita tudo o que é mau e semelhante ao mal.
2 – Não sejas odiento, pois o ódio conduz à morte; nem ciumento, nem brigalhão ou provocador, pois de tudo isso nascem os homicidas.
3 – Meu filho, não sejas cobiçoso de mulheres, pois a cobiça conduz à fornicação. Evita a obscenidade e os maus olhares, pois de tudo isto nascem os adúlteros.
4 – Meu filho, não sejas dado à adivinhação, pois ela conduz à idolatria. Abstém-te também da encantação (feitiçaria) e da astrologia e das purificações, nem procures ver ou ouvir (entender) estas coisas, pois tudo isto origina a idolatria.
5 – Meu filho, não sejas mentiroso, pois a mentira conduz ao roubo; não sejas avarento ou cobiçoso de fama, pois tudo isto origina o roubo.
6 – Meu filho, não sejas furioso, pois isto conduz à blasfêmia; não sejas insolente nem malvado, pois tudo isto origina as blasfêmias.
7 – Sê, antes, manso, pois os mansos possuirão a terra [Cf Mt 5,5; Sl 31,11].
8 – Sê longânime, misericordioso, sem falsidade, tranqüilo e bom e guarda com toda a reverência a instrução ouvida.
9 – Não te eleves a ti mesmo e não entregues teu coração à insolência; não vivas com os ‘grandes’, mas com os justos e humildes.
10 – Tu aceitarás os acontecimentos da vida como sendo bons, sabendo que a Deus nada daquilo que acontece é estranho.
Capítulo IV – Deveres dos senhores e empregados
É melhor dar que receber. Deveres do senhor e dos escravos
1 – Meu filho, lembra-te dia e noite daquele que te anuncia a palavra de Deus e o honrarás como ao Senhor, pois onde se proclama sua soberania aí está o Senhor presente [Cf Hb 13,7].
2 – Todos os dias procurarás a companhia dos santos, para encontrar apoio em suas palavras.
3 – Não causarás cismas, mas reconciliarás os que lutam entre si. Julgarás de maneira justa, sem considerar a pessoa na correção das faltas [Cf Dt 1,16s; Prov 31,9].
4 – Não demorarás em procurar o que te há de acontecer ou não.
5 – Não terás as mãos sempre estendidas para receber, retirando-as quando se trata de dar.
6 – Se possuíres algo, graças ao trabalho de tuas mãos, dá-o em reparação por teus pecados.
7 – Não hesitarás em dar e, dando, não murmurarás, pois algum dia reconhecerás quem é o verdadeiro dispensador da recompensa.
8 – Não repelirás o indigente, mas antes repartirás tudo com teu irmão, não considerando nada como teu, pois, se divides os bens da imortalidade, quanto mais o deves fazer com os corruptíveis [Cf At 4,32; Heb 13,16].
9 – Não retirarás a mão de teu filho ou de tua filha, mas desde sua juventude os instruirás no temor a Deus.
10 – Não darás ordens com rancor ao teu povo ou à tua serva, que esperam no mesmo Deus que tu, para que não percam o temor de Deus que está acima de todos. Com efeito, Ele não virá chamar segundo a aparência da pessoa, mas segundo a preparação do espírito.
11 – Vós, servos, sede submissos aos vossos senhores como se eles fossem uma imagem de Deus, com respeito e reverência [Cf Ef 6,1-9; Col 3,20-25].
12 – Detestarás toda a hipocrisia e tudo o que é desagradável ao Senhor.
13 – Não violarás os mandamentos do Senhor e guardarás o que recebeste, sem acrescentar nem tirar algo.
14 – Na assembléia, confessarás tuas faltas e não entrarás em oração de má consciência. – Este é o caminho da vida.
Capítulo V – Do caminho da morte
Do caminho da morte
1- O caminho da morte é o seguinte: em primeiro lugar, é mau e cheio de maldições: mortes, adultérios, paixões, fornicações, roubos, idolatrias, práticas mágicas, bruxarias, rapinagens, falsos testemunhos, hipocrisias, ambigüidades (falsidades), fraude, orgulho, maldade, arrogância, cobiça, má conversa, ciúme, insolência, extravagância, jactância, vaidade e ausência do temor de Deus;
2 – Perseguidores dos bons, inimigos da verdade, amantes da mentira, ignorantes da recompensa da justiça, não-desejosos do bem nem do justo juízo, vigilantes, não pelo bem, mas pelo mal, estranhos à doçura e à paciência, amantes da vaidade, cobiçosos de retribuição, sem compaixão com os pobres, sem cuidado para com os necessitados, ignorantes de seu Criador, assassinos de crianças, destruidores da obra de Deus, desprezadores dos indigentes, opressores dos aflitos, defensores dos ricos, juizes iníquos dos pobres, pecadores sem fé nem lei. – Filho, fica longe de tudo isso.
Capítulo VI – Aceita o jugo do Senhor
Perfeito é quem aceita o jugo do Senhor
1 – Vigia para que ninguém te afaste deste caminho da instrução, ensinando-te o que é estranho a Deus [Cf Mt 24,4].
2 – Pois, se puderes portar todo o jugo do Senhor, serás perfeito; se não puderes, faze o que puderes.
3 – Quanto aos alimentos, toma sobre ti o que puderes suportar, mas abstém-te completamente das carnes oferecidas aos ídolos, pois este é um culto aos deuses mortos.
Capítulo VII – Instrução sobre o batismo
Instrução sobre o batismo
1 – No que diz respeito ao batismo, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água corrente [Cf Mt 28,19]
2 – Se não tens água corrente, batiza em outra água; se não puderes em água fria, faze-o em água quente.
3 – Na falta de uma e outra, derrama três vezes água sobre a cabeça em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
4 – Mas, antes do batismo, o que batiza e o que é batizado, e se outros puderem, observem um jejum; ao que é batizado, deverás impor um jejum de um ou dois dias.
Capítulo VIII – Sobre o jejum e oração
Sobre o jejum e a oração
1 – Vossos jejuns não tenham lugar (não sejam ao mesmo tempo) com os hipócritas; com efeito, eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana; vós, porém, jejuai na quarta-feira e na sexta (dia de preparação).
2 – Também não rezeis como os hipócritas, mas como o Senhor mandou no seu Evangelho: Nosso Pai no céu, que teu nome seja santificado, que teu reino venha, que tua vontade seja feita na terra, assim como no céu; dá-nos hoje o pão necessário (cotidiano), perdoa a nossa ofensa assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livra-nos do mal [Cf Mt 6,9-13; Lc 11,2-4], pois teu é o poder e a glória pelos séculos.
3 – Assim rezai três vezes por dia.
Tradução: Toni Lopes
Formatação: Maria
Ó Senhor, Deus meu! Quem te buscará com amor tão puro e singelo que deixe de te encontrar, conforme o desejo de sua vontade, se és tu o primeiro a mostrar-te e a sair ao encontro daqueles que te desejam?
O centro da alma é Deus. Quando a pessoa se encontra com ele, em todas as suas faculdades, energias e desejos, terá atingido o cerne e a raiz mais profunda de si mesma, que é Deus.
São João da Cruz (João de Yepes) nasceu perto de Ávila, em Fontiveros, Espanha, no ano de 1542. Era filho de tecelões. Após ter dado provas da sua imperícia nas várias ocupações para as quais a família, muito pobre, o tentou encaminhar, ao vinte anos, ingressou na Ordem dos Carmelitas. Estudou artes e teologia em Salamanca, onde foi prefeito dos estudantes. Foi ordenado sacerdote no ano de 1567, época em que se encontrou com Santa Teresa de Ávila (Teresa de Jesus) a reformadora das carmelitas. A Santa fundadora tinha em mente alargar a reforma também aos conventos masculinos da Ordem Carmelita, e seu delicado discernimento fê-la entrever naquele frade, pequeno, extremamente sério, fisicamente insignificante, mas rico interiormente, o parceiro ideal para levar por diante o seu corajoso projecto. Aos vinte e cinco anos de idade João de Yepes mudou de nome, passando a chamar-se João da Cruz e pôs mãos à obra na reforma, fundando em Durvelo o primeiro convento dos carmelitas descalços. Santa Teresa de Jesus chamava-o de seu pequeno Séneca, brincava amavelmente com a sua baixa estatura mas não hesitava em considerá-lo o pai de sua alma, afirmando também que não era possível discorrer com ele sobre Deus sem vê-lo em êxtase. Vinte e sete anos mais jovem que Teresa, João de Yepes é uma das figuras da mística moderna.
Mas a chamada “religiosidade do deserto” custou ao santo fundador maus-tratos físicos e difamações: em 1577 ficou preso durante oito meses no cárcere de Toledo. Mas foi nessas trevas exteriores que se acendeu a grande chama da sua poesia espiritual. “Padecer e depois morrer” era o lema do autor da Noite Escura da Alma, da Subida do Monte Carmelo, do Cântico Espiritual e da Chama de Amor Viva.
São João da Cruz, morreu no convento de Ubeda, aos quarenta e nove anos, no dia 14 de dezembro de 1591. Foi canonizado em 1726. O Papa Pio XI conferiu-lhe o título de doutor da Igreja, dois séculos depois.
fonte:verbo net
29 agosto 2009 Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: História da Igreja
Por Elizabeth Lev
ROMA, domingo, 23 de agosto de 2009 (ZENIT.org) .- Em 1480, a Itália celebrava a festa da Assunção com liturgias espetaculares, procissões e, claro, banquetes. Com a exceção de Otranto, uma pequena cidade na costa do Adriático, onde 800 homens ofereceram suas vidas a Cristo. Eles foram os Mártires de Otranto.o.
Poucas semanas antes, a frota turca atracara em Otranto. Sua chegada era temida há muitos anos. Desde a queda de Constantinopla, em 1454, era apenas uma questão de tempo até que os turcos otomanos invadissem a Europa.
Otranto está mais próxima do lado leste do Adriático controlado pelos otomanos. São Francisco de Paula reconheceu o perigo iminente para a cidade e seus cidadãos cristãos e pediu reforços para proteger Otranto. Ele predisse: “Ó, cidadãos infelizes, quantos cadáveres vejo cobrindo as ruas? Quanto sangue cristão vejo entre vocês?”
A 28 de julho de 1480, 18.000 soldados turcos invadiram o porto de Otranto. Eles ofereceram condições de rendição aos cidadãos, na esperança de ganhar sem resistência este primeiro ponto de apoio na Itália e completar a conquista da costa adriática. O sultão Mehmed II havia dito ao Papa Sisto IV que levaria seu cavalo para comer sobre o túmulo de São Pedro.
O Papa Sisto, reconhecendo a gravidade da ameaça, exclamou: “pessoas da Itália, se quiserem continuar se chamando de cristãos, defendam-se!”
Apesar de suas advertências terem-se esquecido nos ouvidos da maioria das cabeças coroadas da península –estavam muito ocupadas brigando entre si– o povo de Otranto escutou.
Pescadores, não soldados; eles não tinham artilharia. Eram menos de 15 mil, incluindo mulheres, crianças e idosos. Mas, por comum acordo, eles decidiram guardar a cidade, lançando-se ao combate das forças turcas.
A sofisticada artilharia turca danificava as muralhas de defesa, mas os cidadãos consertavam rapidamente os estragos. Detrás dos muros, os turcos encontraram cidadãos impávidos, determinados a defender as muralhas com óleo fervendo, sem armas, e às vezes usando as próprias mãos.
Os cidadãos de Otranto frustraram o plano do Sultão de um ataque surpresa e deram à Itália duas semanas de tempo precioso para organizar e preparar suas defesas para repelir os invasores. Mas a 11 de agosto os turcos venceram os muros e açoitaram a cidade.
O exército turco foi de casa em casa, promovendo saques, pilhagens e, em seguida, ateando fogo. Os poucos sobreviventes refugiaram-se na catedral. O arcebispo Stefano, heroicamente calmo, distribuiu a Eucaristia e sentou-se entre as mulheres e crianças de Otranto, enquanto um frade dominicano conduzia os fiéis em oração.
O exército de invasores arrombou a porta da catedral e a posterior violência contra mulheres, crianças e o arcebispo –que foi decapitado no altar– chocou a península italiana.
Os turcos tinham tomado a cidade, destruído casas, escravizado o povo e transformado a catedral em mesquita. Cerca de 14.000 pessoas morreram na tomada de Otranto, na maior parte seus próprios cidadãos, mas um pequeno grupo de 800 sobrevivera, então os turcos tentaram o domínio completo, forçando a conversão.
A opção era o Islã ou a morte. Oito centenas de homens, acorrentados, sem casa e família, pareciam totalmente subjugados aos turcos vitoriosos.
Um dos 800, um trabalhador têxtil chamado Antonio Primaldo Pezzula, passou de artesão humilde a líder heróico nesse dia. Antonio voltou-se para seus companheiros de Otranto e declarou: “Vocês ouviram o que vai custar salvar o que resta de nossas vidas! Meus irmãos, lutamos para salvar nossa cidade, agora é tempo de lutar por nossas almas!”
Os 800 homens com idades acima dos 15, de forma unânime, decidiram seguir o exemplo de Antonio e ofereceram suas vidas a Cristo.
Os turcos, que esperavam por um momento de propaganda triunfante, tentaram evitar o massacre. Eles ofereceram o retorno das mulheres e crianças que estavam prestes a ser vendidas como escravos, em troca da conversão dos homens, e eles ameaçaram com a decapitação em massa se isso não fosse aceito. Antonio recusou, seguido pelo resto dos homens.
Na vigília da Assunção, os 800 foram levados para fora da cidade e decapitados. A tradição conta que Antonio Pezzula foi decapitado em primeiro lugar, mas seu corpo sem cabeça permaneceu de pé até que o último otrantino estivesse morto.
Um dos carrascos, um turco chamado Barlabei, ficou tão impressionado com esse prodígio que se converteu ao cristianismo, e também foi martirizado.
Os restos foram cuidadosamente recolhidos, e são mantidos até hoje na Catedral de Otranto. No aniversário de 500 anos de sacrifício dos otrantinos, o Papa João Paulo II visitou a cidade e prestou homenagem aos mártires.
Bento XVI reconheceu oficialmente o martírio em 2007, trazendo Antonio Pezzula e seus companheiros um passo mais perto da canonização.
Esta “hora dos leigos” em Otranto, separados de nós por meio milênio, ainda ressoa como exemplo de testemunho do amor a Cristo. Poucos de nós serão chamados ao mesmo sacrifício de Antonio Pezzuli e seus companheiros, mas como poderíamos responder a sua exortação: “Permanecei fortes e constantes na fé: com esta morte temporal nós ganharemos a vida eterna”.
* * *
Elizabeth Lev ensina arte e arquitetura cristã no campus italiano da Universidade de Duquesne e na Universidade São Tomás.
Por Barnabé, Apóstolo (Séc II)
Fonte: Coleção Patrística Vol I, Padres Apostólicos. Ed. Paulus
Sobre a obra
Por Roque Frangiotti
Encontrada nos manuscritos no século passado, no Sinaítico, por Tischendorf, em 1859, e no Gerusolemitano, por Bryennios, em 1875, esta carta não nos fornece o nome de seu autor, nem a data e o local de composição.
Foi Clemente de Alexandria quem deu origem à tradição que atribui a autoria desta carta a Barnabé, companheiro e colaborador de São Paulo. Em Stromates 5,63,1-6 e no fragmento Hypotyposes mencionado por Eusébio em História Eclesiástica II,1,4, Clemente diz: “A Tiago, o Justo, a João e a Pedro, o Senhor, após sua ressurreição, transmitiu a gnose, estes a transmitiram aos outros apóstolos e os outros apóstolos aos 70, dos quais um era Barnabé”. A identificação desta carta com o colaborador de São Paulo foi adotada, em seguida, por Orígenes e o argumento aduzido se deve a que a carta fora encontrada entre os escritos do Novo Testamento, nos manuscritos Sinaíticos. Este argumento é responsável, também, pela inclusão da carta entre os livros canônicos, inspirados, por parte de Clemente e Orígenes… Contudo, Eusébio e Jerônimo não aceitam este argumento e excluem a carta dentre os livros inspirados.
O ponto de partida para fixação da data da composição desta obra são os capítulos IV e XVI. (…) A carta teria sido escrita durante o período de reconstrução do templo, se pudermos dizer que 16,4 se refere, conforme querem Harnack e Lietzmann, a este fato. Tudo leva a crer que esta é a hipótese mais provável. De fato, evocando Isaías, o autor diz: “Eis que aqueles que destruiram esse templo, eles mesmos o edificarão”. E prossegue: “E o que está se realizando, pois, por causa da guerra deles, o templo foi destruído pelos inimigos. E agora os mesmos servos dos inimigos o reconstruirão”. Este “é o que está se realizando” e o “agora” dão a impressão de que o autor está bem informado e é contemporâneo aos acontecimentos. Este escrito estaria datado, portanto, em torno dos anos 134-135.
A obra está dividida em duas partes bem distintas e muito desiguais. A primeira parte, correspondem os capítulos 2 a 16. O cap. 1 é uma introdução e o cap. 17 se constitui na conclusão desta primeira parte. A segunda parte, correspondem os caps. 18-21. A 1ª parte é doutrinária, dogmática. A 2ª, utilizando a imagem dos “Dois caminhos”, transmite ensinamento moral.
Texto
Tradução: Ivo Storniolo/Euclides M. Balancim
CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO
Saudação
Filhos e filhas, eu vos saúdo na paz, em nome do Senhor que nos amou.
A fé dos destinatários Grandes e ricos são os decretos de Deus a vosso respeito. Acima de tudo, eu me alegro imensamente pelos vossos espíritos felizes e gloriosos, pois dele recebestes a semente plantada em vós mesmos, a graça do dom espiritual. Por isso, eu me alegro mais na esperança de me salvar, porque verdadeiramente vejo em vós que o Espírito da fonte abundante do Senhor foi derramado sobre vós. Em vosso caso, foi isso que me chamou a atenção ao vê-los, o que eu tanto desejava.
Intenções do autor
Estou convencido e intimamente persuadido disso, porque conversei muito convosco. O Senhor caminhou comigo no caminho da justiça e eu também me sinto impulsionado a amar-vos mais do que à minha própria vida, pois a fé e o amor que habitam em vós são grandes e fundados sobre a esperança da vida dele. Pensei que, se eu me preocupasse em participar-vos aquilo que recebi, eu teria recompensa por ter servido a espíritos como os vossos. Esforcei-me então para vos enviar estas poucas linhas, para que, além de vossa fé, tenhais também o conhecimento perfeito. Os ensinamentos do Senhor são três: a esperança da vida, começo e fim da nossa fé; a justiça, começo e fim do julgamento; o amor, testemunho pleno da alegria e contentamento das obras realizadas na justiça. Com efeito, por meio dos profetas, o Senhor nos fez conhecer o passado e o presente, e nos fez saborear antecipadamente o futuro. Vendo que uma e outra coisa se realizam conforme ele falou, devemos progredir no seu temor, de maneira mais rica e mais elevada. 8 Quanto a mim, não é como mestre, mas como um de vós, que vos preparei umas poucas coisas. Através delas, vocês se alegrarão nas circunstâncias presentes.
PARTE II – DOUTRINÁRIO/DOGMÁTICA
CAPÍTULO 2
O culto que Deus quer
Introdução
Como os dias são maus e é aquele que exerce o poder, devemos, para o nosso próprio bem, procurar as decisões do Senhor. Os auxiliares da nossa fé são o temor e a perseverança, e nossos companheiros de luta são a paciência e o autocontrole. Se essas virtudes permanecem puras diante do Senhor, a sabedoria, a inteligência, a ciência e o conhecimento virão regozijar-se com elas.
Os sacrifícios
De fato, foi-nos mostrado, mediante todos os profetas, que Deus não tem necessidade de sacrifícios, nem de holocaustos, e nem de ofertas. Em certa ocasião, ele diz: “Que me importa a multidão de vossos sacrifícios?” diz o Senhor. “Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de cordeiros não sangue de touros e de bodes, e nem que venhais vos apresentar diante de mim. Quem pediu essas coisas de vossas mãos? Não continueis a pisar em meu átrio. Se ofereceis flor de farinha, é em vão; vosso incenso para mim é abominação. Não suporto vossas neomênias e vossos sábados.” Ele rejeitou essas coisas, para que a lei nova de nosso Senhor Jesus Cristo, que é sem o jugo da necessidade, não precise de oferta preparada por homens. Ele ainda lhes disse: “Por acaso, ordenei a vossos pais, ao saírem do Egito, que me oferecessem holocaustos? Pelo contrário, eis o que lhes ordenei: Que nenhum de vós guarde em seu coração rancor contra o próximo e que não ame o juramento falso.” Devemos, portanto, compreender, pois não somos sem inteligência, o desígnio de nosso Pai em sua bondade, pois ele se dirige a nós, desejando que procuremos o modo de nos aproximar dele, sem nos extraviar, como aqueles homens. Eis, portanto, o que ele nos diz: “O sacrifício para Deus é um coração contrito; o perfume de suave odor para o Senhor é o coração que glorifica o seu Criador.” Irmãos, devemos, portanto, cuidar de nossa salvação, para que o maligno não introduza em nós o erro, e nos atire, como pedra de funda, para longe da nossa vida.
CAPÍTULO 3
O jejum
A respeito disso, falou-lhes ainda, “Com que finalidade jejuais para mim”, diz o Senhor, “como se ouve hoje aos gritos a vossa voz? Não é esse jejum que escolhi”, diz o Senhor, “não o homem que humilha a si mesmo. Nem quando dobrais vosso pescoço como um círculo, nem quando vos cobris de pano de saco e cinza, não chameis isso de jejum agradável.” Para nós, porém, ele diz: “Eis o jejum que eu escolhi”, diz o Senhor: “Desata todas as amarras da injustiça; desfaz as cordas dos contratos iníquos; envia os oprimidos em liberdade; rasga toda escritura injusta; reparte teu pão com os famintos; se vês alguém nu, veste-o; conduz para a tua casa os desabrigados; se vês algum pobre, não o desprezes; não te afastes dos membros de tua família. Então tua luz romperá pela manhã, tuas vestes rapidamente resplandecerão, a justiça irá à tua frente e a glória de Deus te envolverá. Então outra vez gritarás, e Deus te ouvirá. Ao falar, ele te dirá: Eis-me aqui! Isso, se renunciares a tecer amarras, a levantar a mão, a murmurar, e se deres de coração o teu pão ao faminto e tiveres compaixão da pessoa necessitada.” Por isso, irmãos, o paciente (Deus), prevendo que o povo, que ele preparou através do seu Amado, acreditaria com simplicidade, nos antecipou todas essas coisas, para que nós, como prosélitos, não nos arrebentássemos contra a lei deles.
CAPÍTULO 4
Vigilância
Exortação geral
É preciso, portanto, que examinemos com grande atenção a situação presente, para procurar o que nos pode salvar. Fujamos, pois, radicalmente de todas as obras iníquas, para que as obras iníquas jamais se apoderem de nós. Odiemos o erro do mundo presente, para que sejamos amados no mundo futuro. Não demos à nossa alma a liberdade, de modo que ela não tenha poder de correr com os maus e pecadores, a fim de que não nos tornemos semelhantes a eles.
Iminência do fim
O máximo do escândalo se aproxima, conforme está escrito, como diz Henoc . Com efeito, é por isso que o Senhor abreviou os tempos e os dias, a fim de que seu Amado chegue mais depressa à herança. Assim diz o profeta: “Dez reis reinarão sobre a terra e, depois disso, surgirá um pequeno rei que humilhará três reis de uma só vez.” Sobre isso, Daniel diz algo semelhante: “Vi a quarta besta, maligna, forte e mais terrível do que todas as bestas do mar. Dela brotaram dez chifres, e desses saiu um pequeno chifre, como broto. Este, de uma só vez, humilhou três dos chifres grandes.” Deveis, portanto, compreender.
A Aliança tem exigências
Além disso, peço- vos insistentemente, eu que sou um e vós e vos amo a todos e a cada um em particular mais do que a .mim mesmo: tomai cuidado para não ficardes como certas- pessoas, que acumulam pecados, dizendo que a Aliança está garantida para nós. Claro que era é nossa. Eles (os judeus) a perderam definitivamente, embora Moisés já a tivesse recebido. De fato, a Escritura diz: “Moisés jejuou na montanha durante quarenta dias e quarenta noites, e depois recebeu do Senhor a Aliança, as tábuas de pedra escritas pelo dedo da mão do Senhor.” Eles, porém, a perderam, por se terem voltado para os ídolos. Com efeito, assim disse o Senhor: “Moisés, Moisés, desce depressa, pois teu povo pecou, aqueles que fizeste sair da terra do Egito.” Moisés compreendeu, e jogou as duas tábuas de suas mãos. A Aliança deles foi rompida, para que a de Jesus, o Amado, fosse selada em nossos corações pela esperança da fé que nele temos. Querendo escrever muitas coisas, não como mestre, mas como convém a quem ama, não deixando perder nada do que possuímos, apliquei-me a escrever, como vosso humilde servidor. Estejamos atentos nestes últimos dias! Nada adiantará todo o tempo de nossa vida e de nossa fé, se agora, neste tempo de impiedade e na iminência dos escândalos, não resistirmos, como convém a filhos de Deus. A fim de que a Treva não se infiltre em nós e às escondidas, fujamos de toda vaidade e odiemos completamente as obras do mau caminho. Não vos isoleis, dobrando-vos sobre vós mesmos, como se já estivésseis justificados, mas reuni-vos, para procurar juntos o vosso bem comum. De fato, a Escritura diz: “Ai daqueles que se crêem inteligentes e que são sábios diante de si mesmos!” Tornemo-nos espirituais, tornemo-nos um templo perfeito para Deus. Quanto nos for possível, apliquemo-nos ao temor de Deus e combatamos para observar seus mandamentos, a fim de nos alegrarmos em suas disposições. O Senhor julgará o mundo com imparcialidade; cada um receberá segundo o que fez. Se for bom, sua justiça o precederá; se for mau, diante dele irá o salário do mal. 13. Tomemos cuidado para não ficarmos tranqüilos como chamados, adormecendo sobre nossos pecados, de modo que o príncipe do mal se apodere de nós e nos afaste do reino do Senhor. Meus irmãos, compreendei ainda o seguinte: quando vedes que, depois de tantos sinais e prodígios acontecidos em Israel, assim mesmo eles foram abandonados, tomemos cuidado, como está escrito, para que não sejamos encontrados “muitos chamados, mas poucos escolhidos.”
CAPÍTULO 5
Sofrimento do Senhor
O Senhor sofreu para purificar-nos de nossos pecados
O Senhor suportou entregar sua própria carne à destruição, para que fôssemos purificados pelo perdão dos pecados, isto é, pela aspersão feita com seu sangue. A respeito dele, a Escritura diz o seguinte sobre Israel e sobre nós: “Ele foi ferido por causa de nossas iniqüidades e maltratado por causa de nossos pecados, e nós fomos curados por sua chaga. Foi conduzido como ovelha ao matadouro e, como cordeiro, ficou mudo diante do tosquiador.”
Responsabilidade do homem
Precisamos, portanto, multiplicar nossos agradeci mentos ao Senhor, porque ele nos fez conhecer as coisas passadas, tornou-nos sábios no presente e não estamos sem inteligência para as coisas futuras. A Escritura diz: “Não se estendem injustamente as redes para os pássaros.” Isso quer dizer que, com razão, se perderá o homem que, tendo conhecimento do caminho da justiça, toma entretanto o caminho das trevas.
O Senhor sofreu para cumprir a promessa
Ainda o seguinte, meus irmãos: “Se o Senhor suportou sofrer por nós, embora fosse o Senhor do mundo inteiro, a quem Deus disse desde a criação do mundo: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança’, como pode ele suportar sofrer pela mão dos homens? Aprendei. Os profetas, que tinham a graça dele, profetizaram a seu respeito. E ele afim de destruir a morte e mostrar a ressurreição dos mortos, teve que se encarnar e sofrer, afim de cumprir a promessa feita aos pais e preparar para si o povo novo e demonstrar, durante sua estada na terra, que era ele mesmo que julgaria, depois de ter realizado a ressurreição.
O Senhor sofreu na carne para que os pecadores pudessem vê-lo
Por fim, embora ele tivesse ensinado a Israel e realizado tão grandes prodígios e sinais, eles não foram levados por sua pregação a amá-lo acima de tudo. Porém, quando ele escolheu seus próprios apóstolos, que iriam anunciar o seu Evangelho, homens cujo pecado ultrapassava a medida, foi para mostrar que ele não tinha vindo chamar os justos, e sim os pecadores. Então ele manifestou que era Filho de Deus. Com efeito, se não se tivesse encarnado, como os homens poderiam ter sido salvos ao vê-lo, uma vez que eles não podem levantar os olhos para olhar de frente os raios do sol, que todavia um dia deixará de existir e que é tão-somente obra de suas mãos?
O Senhor sofreu para levar ao máximo o pecado de Israel
Se o Filho de Deus se encarnou, foi para levar ao máximo os pecados daqueles que tinham perseguido mortalmente os profetas dele. E por isso que ele suportou. De fato, Deus diz que é deles que vem a ferida de sua carne: “Quando ferirem o seu pastor, então as ovelhas do rebanho perecerão.” Foi ele, porém, que quis sofrer desse modo. Com efeito, era preciso que ele sofresse sobre o madeiro, pois o profeta diz a seu respeito: “Poupa à minha vida à espada.” E “transpassa com cravo a minha carne, porque uma assembléia de malfeitores se levantou contra mim.” E diz ainda: “Eis que ofereci minhas costas aos açoites e minha face para as bofetadas. Contudo, mantive o meu rosto como pedra dura.”
CAPÍTULO 6
Vitória pascal
O que diz ele, quando cumpriu o mandamento? “Quem é que me julga? Coloque-se diante de mim. Ou quem quer ser declarado justo diante de mim? Que se aproxime do servo do Senhor. Ai de vós! Porque todos vós envelhecereis como veste e a traça vos roerá.” E o profeta continua, uma vez que ele foi colocado como sólida pedra para esmagar: “Eis que colocarei nos alicerces de Sião uma pedra de grande valor, escolhida, angular e preciosa.” O que diz em seguida? “Aquele que nela crer, viverá para sempre.” Será que a nossa esperança está numa pedra? De modo nenhum. Mas foi o Senhor que tornou forte a sua carne. Com efeito, ele diz: “Ele me tornou como pedra dura”. O profeta continua: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a cabeça de ângulo.” E diz ainda: “Este é o dia grande e maravilhoso que o Senhor fez.”
A paixão
Eu, humilde servo do amor, vos escrevo com simplicidade, para que compreendais. O que diz ainda o profeta? “Uma assembléia de malfeitores me rodeou. Eles me cercaram como abelhas ao favo.” E “sobre minhas vestes tiraram sortes.” E como era na sua carne que ele devia revelar-se e sofrer, sua paixão foi revelada de antemão. De fato, o profeta diz a respeito de Israel: “Ai da vida deles! Pois conceberam um desejo mau contra si mesmos, dizendo: Amarremos o justo, porque ele nos incomoda.”
Nova criação
Que lhes diz Moisés, outro profeta? “Eis o que diz o Senhor Deus: Entrai na terra boa, que o Senhor prometeu a Abraão, Isaac e Jacó. Tomai posse dessa terra, onde correm leite e mel.” 0 que diz a sabedoria? Aprendei: “Ponde vossa esperança em Jesus, que deve revelar-se a vós na carne.” Com efeito, o homem é terra que sofre, pois é da terra que Adão foi plasmado. Que significa: “Na terra boa, terra onde correm leite e mel”? Bendito seja nosso Senhor, irmãos, pois ele pôs em nós a sabedoria e o entendimento de seus segredos. Pois o profeta diz: “Quem poderá compreender uma parábola do Senhor, a não ser o sábio que conhece e ama o seu Senhor?” Depois de nos ter renovado com o perdão dos pecados, ele fez de nós um novo ser, de modo que tenhamos alma de criança, como se ele nos tivesse plasmado novamente. De fato, a Escritura fala a nosso respeito, quando ele diz ao Filho: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que eles dominem sobre os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar.” E, vendo que nós éramos boa criação, o Senhor disse: “Crescei, multiplicaivos e enchei a terra.” Foi isso que ele disse ao Filho. Vou agora te mostrar como ele fala de nós. Ele realizou segunda criação nos últimos tempos. O Senhor diz: “Eis que faço as últimas coisas como as primeiras.” Nesse sentido, assim falou o profeta: “Entrai na terra onde correm leite e mel, e dominai-a.” Eis-nos, portanto, criados de novo, conforme o que ele diz ainda por outro profeta: “Eis”, diz o Senhor, “que arrancarei deles” -isto é, daqueles que o Espírito do Senhor via de antemão-”os corações de pedra, e implantarei neles corações de carne.” De fato, é na carne que ele devia manifestar-se e habitar em nós. Com efeito, meus irmãos, nossos corações assim habitados formam um templo santo para o Senhor. E o Senhor diz ainda: “Como me apresentarei diante do Senhor e serei glorificado?” Ele diz: “Celebrar-te- ei na assembléia de meus irmãos e cantarei teus louvores em meio à assembléia dos santos.” Portanto, somos nós que ele fez entrar na terra boa. E o que significam o “leite” e o “mel”? E porque a criança é nutrida primeiro com o mel e depois com o leite. Igualmente nós, alimentados pela fé na promessa e na palavra, vivemos dominando a terra. Ora, ele tinha dito antes: “Que eles cresçam, se multipliquem e dominem os peixes.” E quem pode hoje dominar as feras, ou os peixes, ou os pássaros do céu? Devemos compreender que dominar implica poder, a fim de que aquele que ordena possa dominar. Se hoje não é assim, ele nos disse o tempo: Quando formos perfeitos para sermos herdeiros da aliança do Senhor.
CAPÍTULO 7
Jejum e o bode expiatório
Compreendei, portanto, filhos da alegria, que o bom Senhor nos revelou tudo de antemão, para que saibamos a quem constantemente celebrar com ação de graças. Se o Filho de Deus, que é Senhor e julgará os vivos e os mortos, sofreu para nos dar a vida por meio de seus ferimentos, acreditamos que o Filho de Deus não podia sofrer, a não ser por causa de nós. Além disso, já crucificado, deram-lhe a beber vinagre e fel. Escutai como os sacerdotes do templo se expressaram sobre isso. O mandamento escrito dizia: “Quem não jejuar no dia do jejum, será condenado à morte.” O Senhor deu esse mandamento, porque também ele devia oferecer a si próprio pelos nossos pecados, como receptáculo do Espírito, em sacrifício, a fim de que fosse cumprida a prefiguração manifestada em Isaac, oferecido sobre o altar. O que diz ele por meio do profeta? “Que comam, durante o jejum, do bode oferecido por todos os pecados.” Notai bem: “E que todos os sacerdotes, e somente eles, comam as vísceras não lavadas com vinagre.” Por que isso? “Porque vós me fareis beber fel com vinagre, a mim que ofereci minha carne pelos pecados do meu novo povo. Somente vós comereis, enquanto o povo jejuará e se flagelará com pano de saco e cinza.” Isso era para mostrar que ele deveria sofrer na mão deles. Como ele ordenou? Prestai atenção: “Tomai dois bodes bonitos e iguais, e oferecei-os em sacrifício. Que o sacerdote tome o primeiro como holocausto pelos pecados.” E o que farão com o outro? Ele diz: “O outro é maldito.” Notai como a figura de Jesus é manifestada. “Cuspi todos nele, transpassai-o, coroai sua cabeça com lã escarlate e, desse modo, seja expulso para o deserto.” Feito isso, aquele que leva o bode o conduz ao deserto, tira-lhe a lã e a coloca sobre um arbusto chamado sarça, cujos frutos costumamos comer quando nos encontramos no campo. Somente os frutos da sarça são doces. O que significa isso? Prestai atenção: “O primeiro bode sobre o altar, o outro é maldito”. Justamente o maldito é que é coroado. É que eles o verão, naquele dia, trazendo sobre sua carne o manto escarlate, e dirão: “Não é este que outrora crucificamos, depois de o ter desprezado, transpassado e cuspido? Na verdade, era este que então se dizia Filho de Deus.” Qual a sua semelhança com aquele? São bodes “semelhantes”, “belos”, iguais, para que quando o virem então vir, fiquem espantados com a semelhança do bode. Eis, portanto, a figura de Jesus que devia sofrer. E por que se coloca a lã no meio dos espinhos? É uma figura de Jesus proposta para a Igreja: porque os espinhos são terríveis, aquele que quer pegar a lã escarlate deve sofrer muito, e deve apossar-se dela através da dor. Ele diz: “Dessa forma, aqueles que desejam ver-me e alcançar o meu Reino devem passar por tribulações e sofrimentos, para se apossar de mim.”
CAPÍTULO 8
Sacrifício da novilha
E que figura pensais que representa o mandamento dado a Israel: os homens que têm pecados consumados ofereçam a novilha, a imolem e, depois queimem? Além disso, as crianças deviam recolher as cinzas, colocá-las nos vasos, enrolar a lã escarlate num pedaço de madeira – de novo aqui a imagem da cruz e a lã escarlate – e o hissopo. E assim, as crianças deviam aspergir todos os membros do povo, para que ficassem purificados dos pecados. Reconhecei como ele vos fala com simplicidade: a novilha é Jesus; os pecadores que a oferecem são aqueles que o conduziram para ser imolado. Basta com esses homens! Basta com a glória dos pecadores! As crianças que fazem a aspersão são aqueles que nos anunciaram a remissão dos pecados e a purificação do coração. A eles foi conferida a autoridade de anunciar o Evangelho, e são doze para testemunhar às tribos, pois as tribos de Israel eram doze. E por que são três crianças que fazem a aspersão? Para testemunhar Abraão, Isaac e Jacó, que são grandes diante de Deus. E a lã sobre o madeiro? Ela significa que o Reino de Jesus está sobre o madeiro e os que nele esperam viverão para sempre. Contudo, por que se põem juntos a lã e o hissopo? Porque no seu Reino haverá dias maus e poluídos, durante os quais seremos salvos. Com efeito, é pelo respingo poluído do hissopo que se cura aquele cuja carne está doente. E por isso que esses acontecimentos são tão claros para nós, mas para eles tão obscuros, pois eles não ouviram a voz do Senhor.
CAPÍTULO 9
A verdadeira circuncisão
Circuncisão do ouvido
De fato, é dos ouvidos que ele fala ainda, quando diz que circuncidou nossos ouvidos e nossos corações. O Senhor diz por meio do profeta: “Obedeceram-me com os ouvidos.” E diz ainda: “Os que estão longe escutarão com o ouvido e conhecerão o que eu fiz”. E mais: “Circuncidai vossos ouvidos, diz o Senhor.” E diz também: “Escuta, Israel, eis o que diz o Senhor teu Deus: Quem deseja viver para sempre? Que ele escute com o ouvido a voz do meu servo.” E diz ainda: “Escuta, ó céu; dá ouvidos, ó terra, pois o Senhor falou isso como testemunho.” E diz mais: “Escutai a palavra do Senhor, príncipes deste povo.” E diz ainda: “Filhos, escutai a voz que grita no deserto.” Ele, portanto, circuncidou nossos ouvidos, para que escutemos a palavra e creiamos.
Circuncisão do coração
Contudo, a circuncisão, na qual eles depositavam confiança, foi rejeitada. De fato, ele dissera que a circuncisão não devia ser da carne, mas eles transgrediram, porque um anjo mau os enganou. Todavia, ele lhes diz: “Assim fala o Senhor vosso Deus” – é aí que encontro o mandamento -: “Não semeeis entre os espinhos, mas circuncidai-vos para o vosso Senhor.” E o que diz ele? “Circuncidai a maldade do vosso coração.” E diz ainda: “Eis, diz o Senhor, que todas as nações têm o prepúcio incircunciso, mas este povo tem o coração incircunciso.”
Circuncisão de Abraão
Vós, porém, direis: “O povo recebeu a circuncisão como selo.” Contudo, todos os sírios, os árabes e todos os sacerdotes dos ídolos também têm a circuncisão. Pertencem também eles à sua aliança? Até os egípcios praticam a circuncisão! Filhos do amor, aprendei mais particularmente estas coisas: Abraão, praticando por primeiro a circuncisão, circuncidava porque o Espírito dirigia profeticamente seu olhar para Jesus, dando-lhe o conhecimento das três letras. Com efeito, ele diz: “E Abraão circuncidou entre os homens de sua casa trezentos e dezoito homens.” Qual é, portanto, o conhecimento que lhe foi dado? Notai que ele menciona em primeiro lugar os dezoito e depois, fazendo distinção, os trezentos. Dezoito se escreve: I, que vale dez, e H, que representa oito. Tens aí: IH(sous) = Jesus. E como a cruz em forma de T devia trazer a graça, ele menciona também trezentos (= T). Portanto, ele designa claramente Jesus pelas duas primeiras letras e a cruz pela terceira. Quem depositou em nós o dom do seu ensinamento sabe bem disto: Ninguém recebeu de mim ensinamento mais digno de fé. Sei, porém, que vós sois dignos.
CAPÍTULO 10
Significado espiritual das prescrições alimentares
Primeira formulação
Moisés disse: “Não comereis porco, nem águia, nem gavião, nem corvo, nem peixe algum que não tenha escamas”. Porque ele tinha em mente três ensinamentos. Por fim, ele diz a eles no Deuteronômio: “Exporei a esse povo as minhas decisões.” A proibição de comer não é, portanto, mandamento de Deus, pois Moisés falava simbolicamente. Eis o significado do que ele diz sobre o “porco”. Não te ligarás a esses homens que se assemelham aos porcos; isto é, que quando vivem na abundância, se esquecem do Senhor; mas na necessidade reconhecem o Senhor. Assim é o porco: enquanto está comendo, ele não conhece seu dono; mas quando está com fome, ele grunhe e, uma vez tendo comido, volta a se calar. Ele diz: “Também não comerás a águia, nem o gavião, nem o milhafre, nem o corvo.” Isto é: não te ligarás, imitando-os, a esses homens que não sabem ganhar o alimento por meio do trabalho e do suor, mas que, em sua injustiça, arrebatam o bem alheio. Andam com ar inocente, mas espionam e observam a quem vão despojar por ambição. Eles são como essas aves, as únicas que não providenciam o alimento por si próprias, mas se empoleiram ociosamente, procurando a ocasião de se alimentar da carne dos outros. São verdadeiros flagelos por sua crueldade. Ele continua: “Não comerás moreia, nem polvo, nem molusco.” Isto é: não te assemelharás, ligando-te a esses homens que são radicalmente ímpios e já estão condenados à morte. O mesmo acontece com esses peixes: são os únicos amaldiçoados, que nadam nas profundezas, sem subirem como os outros; permanecem no fundo da terra, habitando o abismo.
Segunda formulação
Também “não comerás a lebre.” Por que razão? Isso quer dizer: não serás pederasta, nem imitarás aqueles que são assim. Porque a lebre, a cada ano, multiplica seu ânus. Ela tem tantos orifícios quanto o número de seus anos. Também “não comerás a hiena”. Isso quer dizer: não serás nem adúltero, nem homossexual, e não te Assemelharás àqueles que são assim. Por que razão? Porque esse animal muda de sexo todos os anos e torna se ora macho, ora fêmea. EIe odiou também “a doninha”. Muito bem! Não serás como aqueles que cometem, como se diz, iniqüidade com a boca por depravação, nem te ligarás a esses depravados que cometem iniqüidade com sua boca. De fato, esse mal se concebe pela boca. Moisés, tendo recebido tríplice ensinamento sobre os alimentos, usou linguagem simbólica. Eles, porém, o entenderam sobre os alimentos materiais, por causa do desejo carnal.
Davi confirma o ensinamento
Davi recebeu o conhecimento desse mesmo ensinamento tríplice. Ele fala de forma semelhante: “Feliz o homem que não vai ao conselho dos ímpios”, como os peixes que se movem nas trevas para o fundo; “e que não pára no caminho dos pecadores”, como aqueles que aparentam temer ao Senhor, mas pecam como o porco; “e que não se assentou na cátedra da pestilência”, como as aves que se postam para a rapina. Aí tendes perfeitamente o que se refere à comida.
Conclusão
Moisés, porém, disse: “Comei de todo animal que tem o casco fendido e que rumina.” O que ele quer dizer? Que (tal animal), quando recebe a comida, conhece aquele que o alimenta, e quando repousa, parece que se alegra com ele. Disse-o bem, considerando o mandamento. Que quer ele dizer? Vinculai-vos àqueles que temem o Senhor, que meditam no coração sobre o sentido exato da palavra que receberam, que ensinam e observam as decisões do Senhor, que sabem que a meditação é alegre exercício e que ruminam a palavra do Senhor. O que significa o “casco fendido”? É que o justo caminha neste mundo e espera o mundo santo. Vede como Moisés legislou bem! Mas, para eles, como é possível compreenderem ou entenderem essas coisas? Nós, tendo compreendido exatamente os mandamentos, os exprimimos como o Senhor desejou. Por isso, ele circuncidou nossos ouvi dos e nossos corações, para compreendermos essas coisas.
CAPÍTULO 11
Profecias do Batismo e da Cruz
A água
Pesquisemos se o Senhor teve intenção de falar antecipadamente sobre a água e sobre a cruz. Quanto à água, está escrito que Israel não teria recebido o batismo que leva à remissão dos pecados, mas que eles próprios teriam constituído um. Com efeito, diz o profeta: “Pasma, ó céu, e que a terra trema ainda mais! Pois este povo cometeu mal duplo: eles me abandonaram, a mim que sou a fonte viva da água, e cavaram para si mesmos uma cisterna de morte. Por acaso, o Sinai, minha montanha santa, é rocha deserta? Vós sereis como os passarinhos que voam, quando se lhes tira o ninho.” E o profeta diz ainda: “Eu marcharei à tua frente, aplainarei as montanhas, quebrarei as portas de bronze, despedaçarei as trancas de ferro, e te darei tesouros secretos, escondidos, invisíveis, a fim de que saibam que eu sou o Senhor Deus. Tu habitarás numa caverna alta de rocha sólida, onde a água não falta nunca. Vereis o rei em sua glória e vossa alma meditará no temor do Senhor.”
A água e o madeiro
EIe diz ainda por meio de outro profeta: “Quem assim age, será como a árvore plantada junto à corrente d’água, e que dá seu fruto no tempo certo. Sua folhagem não cairá; e tudo o que ele fizer terá sucesso. Não são assim os ímpios, não são assim. Eles são, antes, como a poeira que o vento espalha na face da terra. E por isso que os ímpios não se levantarão no julgamento, nem os pecadores no conselho dos justos. Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.” Notai que ele designa ao mesmo tempo a água e a cruz. Com efeito, ele quer dizer: “Felizes aqueles que, tendo lançado sua esperança na cruz, desceram para a água. Pois ele diz que o salário vem “no tempo certo”. Então, diz ele, eu retribuirei. Mas para hoje, ele diz: “Sua folhagem não cairá.” Isso significa que toda palavra de fé e amor que sair da vossa boca será para muitos causa de conversão e de esperança. E outro profeta diz ainda: “E a terra de Jacó era celebrada mais do que qualquer outra terra.” Isso quer dizer que ele glorifica o vaso do seu Espírito. O que diz ele a seguir? “Havia um rio que corria, vindo da direita, e árvores esplêndidas hauriam dele seu crescimento. Qualquer pessoa que delas comer, viverá eternamente.” Isso significa que descemos para a água carregados de pecados e poluição, mas subimos dela para dar frutos em nosso coração, tendo no Espírito o temor e a esperança em Jesus. “Quem comer deles viverá eternamente”, quer dizer: quem escutar, quando tais palavras são ditas, e crer nelas, viverá eternamente.
CAPÍTULO 12
O madeiro
Da mesma forma, é sobre a cruz que ele fala por meio de outro profeta: “Quando tais coisas se cumprirão? Diz o Senhor: Quando um madeiro for estendido no chão e depois novamente levantado, e quando o sangue gotejar do madeiro.” Eis que se fala de novo da cruz e daquele que seria crucificado. Ele ainda fala a Moisés, quando Israel é atacado pelos povos estrangeiros, para lembrar-lhes, nesse combate, que era pelos pecados deles que estavam sendo entregues à morte. Falando ao coração de Moisés, o Espírito lhe fez representar a figura da cruz e de quem sofreria, pois, diz ele, se não esperarem nele, serão eternamente atacados. Então Moisés amontoou as armas no meio do combate e, de pé, no lugar mais alto de todos, estendeu os braços, e assim Israel venceu novamente. Em seguida, cada vez. que os abaixava, os israelitas sucumbiam outra vez. Por quê? Para que soubessem que não podiam ser salvos, se não confiassem nele. Por meio de outro profeta, ele diz ainda: “O dia inteiro estendi meus braços para um povo desobediente e que se opõe ao meu justo caminho.” Outra vez ainda, no momento em que Israel sucumbia, Moisés fez prefiguração de Jesus, mostrando que ele devia sofrer, e justamente aquele que acreditavam estar morto na cruz, haveria de dar a vida. De fato, o Senhor fez com que todo tipo de serpentes os mordessem, e eles morriam, embora a serpente tenha sido para Eva o instrumento da desobediência. Ele queria assim convencê-los de que era por causa da desobediência deles que seriam entregues à tortura da morte. Finalmente, o próprio Moisés tinha ordenado: “Não tereis, como vosso deus, nenhuma imagem fundida ou esculpida.” Mas ele próprio fez uma serpente de bronze, colocou-a diante de todos, e convocou o povo. Quando se reuniram naquele lugar, suplicaram a Moisés que intercedesse pela cura deles. Moisés porém, lhes respondeu: “Quando alguém de vós for mordido, venha até à serpente fixada ao madeiro e creia com confiança. Crendo que essa serpente, embora morta, possa dar a vida, no mesmo instante será salvo.” Assim fizeram eles. Eis aqui de novo a glória de Jesus, porque tudo está nele e tudo é para ele.
Jesus, Filho de Deus
Que diz ainda Moisés a respeito do profeta Jesus, filho de Nave, dando-lhe esse nome, somente para que todo o povo ouvisse que o Pai revela todas as coisas em torno de seu Filho Jesus? Enviando-o para explorar o país, depois de lhe ter dado esse nome, Moisés disse a Jesus, filho de Nave: “Toma em tuas mãos um livro e escreve o que diz o Senhor: Nos últimos dias, o Filho de Deus arrancará pelas raízes a casa de Amalec.” Mais uma vez, eis que Jesus, manifestado em prefiguração carnal, não filho de homem, mas Filho de Deus. Porque diriam que o Cristo é filho de Davi, o próprio Davi, temendo e prevendo o erro dos pecadores, profetiza: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos como estrado para teus pés.” Isaías também diz: “O Senhor disse ao Cristo, meu Senhor: Eu o tomei pela mão direita, para que as nações lhe obedeçam, e eu romperei a força dos reis.” Vede como Davi o chama Senhor, e não filho!
CAPÍTULO 13
A Aliança
Qual povo é o herdeiro?
Vejamos agora qual é o povo que recebe a herança. Se este, ou se o primeiro. E a Aliança, é para nós, ou para aqueles? Escutai, então, o que diz a Escritura a respeito do povo: “Isaac rezava pela sua mulher Rebeca, que era estéril, e ela concebeu”. Depois: “Rebeca saiu para consultar o Senhor, e o Senhor lhe disse: Há duas nações em teu seio e dois povos em tuas entranhas. Um povo dominará o outro, e o mais velho servirá ao mais jovem.” Deveis compreender quem é Isaac e quem é Rebeca, e a quem se referia ao mostrar que este povo é maior do que aquele. Em outra profecia, Jacó se dirige mais claramente ainda a seu filho José, dizendo: “Eis que o Senhor não me privou de tua presença. Traze-me teus filhos, para que eu os abençoe.” Ele levou Efraim e Manasses, querendo que Manassés, o mais velho, recebesse a bênção. José o conduziu para a mão direita de seu pai Jacó. No entanto, Jacó viu em espírito a prefiguração do povo futuro. E o que disse ele? “E Jacó cruzou as mãos, e colocou a direita sobre a cabeça de Efraim, o segundo e o mais novo, e o abençoou. Então José disse a Jacó: ‘Desvia tua mão direita e colocaa sobre a cabeça de Manassés, pois ele é o meu filho primogénito’. Então Jacó disse a José: ‘Eu sei, meu filho, eu sei. O mais velho servirá ao mais jovem, e é este que será abençoado.’” Vede a quem ele se referia ao decidir que este povo seria o primeiro e o herdeiro da Aliança. Se isso ainda nos é lembrado no caso de Abraão, então nosso conhecimento torna-se completo. O que é que ele diz então a Abraão, pelo fato de que somente ele tinha acreditado, e foi estabelecido na justiça? “Abraão, eis que eu te estabeleci como pai de nações que, embora incircuncisas, acreditam em Deus.”
CAPÍTULO 14
A quem Deus dá sua Aliança?
Muito bem. Porém vejamos: Pesquisemos, para ver se ele deu ao povo a Aliança que prometera – juramento a seus antepassados. Certamente ele a deu, mas eles não foram dignos de recebê-la, por causa de seus pecados. De fato, o profeta diz: “Moisés jejuou quarenta dias e quarenta noites no monte Sinai, para receber a Aliança do Senhor com o povo. E Moisés recebeu do Senhor as duas tábuas escritas em espírito pelo dedo da mão do Senhor. Moisés as tomou, e começou a descer, para levá-las ao povo. Então disse a Moisés o Senhor: `Moisés, Moisés, apressa-te a descer, pois teu povo, que fizeste sair da terra do Egito, pecou.’ Moisés compreendeu que eles ainda tinham feito para si imagens de metal fundido. Então ele atirou de suas mãos as tábuas, e as tábuas da Aliança do Senhor se quebraram.” Moisés, portanto, a recebeu, mas eles não foram dignos dela. Aprendei como nós a recebemos. Moisés a recebeu como servo, mas o próprio Senhor, depois de sofrer por nós, no-la entregou como povo da herança. Ele apareceu, para que aqueles levassem ao máximo a medida dos pecados e nós recebêssemos a Aliança mediante o Senhor Jesus, o herdeiro. Jesus foi preparado por ocasião de sua manifestação, para libertar das trevas nossos corações já consumidos pela morte e entregues aos desvios da iniqüidade, e para estabelecer conosco uma Aliança com a palavra. De fato, está escrito que o Pai lhe ordenou libertar-nos das trevas, a fim de preparar para si um povo santo. Diz, portanto, o profeta: “Eu, o Senhor teu Deus, te chamei na justiça, e te tomarei pela mão e te fortificarei. Eu te coloquei como Aliança de um povo, como luz das nações, para abrir os olhos dos cegos, para libertar das cadeias os prisioneiros e da prisão aqueles que estão nas trevas.” Sabei, portanto, de onde fomos libertos! O profeta diz ainda: “Eis que eu te coloquei como luz das nações, a fim de que sirvas para a salvação, até os confins da terra. Assim diz o Senhor, o Deus que te libertou.” E o profeta diz ainda: “O Espírito do Senhor está sobre mim e, por isso, me ungiu para anunciar aos pobres o evangelho da graça. Ele me enviou para curar os corações quebrantados, para proclamar aos prisioneiros a liberdade e aos cegos a vista, para anunciar o ano favorável do Senhor e o dia da retribuição, para consolar todos os que choram.”
CAPÍTULO 15
O Sábado de Deus
Ainda, sobre o sábado, está escrito no Decálogo que Deus o entregou pessoalmente a Moisés sobre o monte Sinai: “Santificai o sábado do Senhor com mãos puras e coração puro.” Em outro lugar, ele diz: “Se meus filhos guardarem o sábado, então estenderei sobre eles a minha misericórdia.” Ele menciona o sábado no princípio da criação: “Em seis dias, Deus fez as obras de suas mãos e as terminou no sétimo dia, e nele descansou e o santificou.” Prestai atenção, filhos, sobre o que significa: “terminou no sétimo dia”. Isso significa que o Senhor consumará o universo em seis mil anos, pois um dia para ele significa mil anos. Ele próprio o atesta, dizendo: “Eis que um dia do Senhor será como mil anos.” Portanto, filhos, em “seis dias”, que são seis mil anos, o universo será consumado. “E ele descansou no sétimo dia.” Isso quer dizer que seu Filho, quando vier para pôr fim ao tempo do Iníquo, para julgar os ímpios e mudar o sol, a lua e as estrelas, então ele, de fato, repousará no sétimo dia. Por fim, ele diz: “Tu o santificarás com mãos puras e coração puro.” Contudo, se alguém atualmente pudesse santificar, de coração puro, esse dia que Deus santificou, então nós nos teríamos enganado completamente. Porém, se este agora não é o caso, ele o santificará verdadeiramente no repouso, quando nós formos capazes disso, isto é, quando tivermos sido justificados e tivermos recebido o objeto da promessa, quando não houver mais iniqüidade, e o Senhor tiver renovado tudo. Então, poderemos santificá-lo, tendo sido primeiro nós mesmos santificados. Ele finalmente lhes disse: “Não suporto vossas neomênias e vossos sábados”. Vede como ele diz: não são os sábados atuais que me agradam, mas aquele que eu fiz e no qual, depois de ter levado todas as coisas ao repouso, farei o início do oitavo dia, isto é, o começo de outro mundo. Eis por que celebramos como festa alegre o oitavo dia, no qual Jesus ressuscitou dos mortos e, depois de se manifestar, subiu aos céus.
CAPÍTULO 16
O Templo
No que se refere ao templo, eu vos direi ainda como esses infelizes extraviados puseram sua esperança num edifício, como se fosse a casa de Deus, e não no Deus deles, que os criou. Com efeito, quase como os pagãos, eles o consagraram no templo. Mas, como fala o Senhor, abolindo-o? Aprendei: “Quem mediu o céu com o palmo e a terra com a mão? Não fui eu? diz o Senhor: O céu é o meu trono e a terra é o estrado dos meus pés. Que casa construireis para mim, ou qual será o lugar do meu repouso?” Vede como era vã a esperança deles. Por fim, ele diz ainda: “Eis! aqueles que destruíram esse templo, eles mesmos o edificarão.” E o que está acontecendo. De fato, por causa da guerra deles, o templo foi destruído pelos inimigos. E agora, os mesmos servos dos inimigos o reconstruirão. Ele tinha igualmente revelado que a cidade, o templo e o povo de Israel seriam entregues. Com efeito, a Escritura diz: “Acontecerá no fim dos dias que o Senhor entregará à destruição as ovelhas do pasto, o aprisco e a sua torre.” E aconteceu conforme o Senhor tinha dito. Indaguemos se existe um templo de Deus. Sim, existe onde ele mesmo diz que o há de construir e aperfeiçoar. De fato, está escrito: “Quando a semana estiver terminada, será construído um templo de Deus, com esplendor, sobre o nome do Senhor.” Acho pois que existe um templo. E como ele “será construído sobre o nome do Senhor”? Aprendei: antes que acreditássemos em Deus, nossos corações eram uma habitação corruptível e frágil, exatamente como um templo construído por mão humana. Com efeito, estava cheio de idolatria e era casa de demônios pois todas as nossas ações se opunham a Deus. Contudo, “ele será construído sobre o nome do Senhor.” Estai atentos, para que o templo do Senhor seja construído “com esplendor”. De que modo? Aprendei: recebendo o perdão dos pecados e pondo nossa esperança no Nome, nós nos tornamos novos, recriados desde o princípio. É por isso que Deus habita verdadeiramente em nós, tornando-nos sua morada. Como? Pela sua palavra de fé, pelo chamado da sua promessa, pela sabedoria das suas leis, pelos mandamentos da doutrina, e ele próprio profetizando em nós, habitando em nós, abrindo para nós a porta do templo, que é a nossa boca, e dando-nos o arrependimento, ele nos introduz no templo incorruptível. De fato, quem deseja ser salvo não olha para o homem, mas para aquele que habita nele e fala por meio dele, maravilhado “Neomênias” é o primeiro dia do mês (lunar), a “lua nova” ou “neomênia”, era uma festa celebrada tanto entre os israelitas como entre os cananeus (cf. Lv 23,24; 1Sm 20,5.24; Is 13; Am 8,5). Como o sábado, a lua nova (neoménia) interrompia as transações comerciais. de não ter ouvido as palavras daquele que fala através de uma boca humana, nem de ter desejado ouvi-Ias. Esse é o templo espiritual construído pelo Senhor.
CAPÍTULO 17
Conclusão
Eu vos expliquei essas coisas com a maior simplicidade possível, e espero não ter deixado nada de lado. Com efeito, se vos escrevesse sobre o presente ou o futuro, não compreenderíeis, pois isso permanece em parábolas.
PARTE III – MORAL
CAPÍTULO 18
Os Dois Caminhos
Introdução
Sobre esse assunto, chega. Passemos para outro tipo de conhecimento e ensinamento. Existem dois caminhos de ensinamento e autoridade: o da luz e o das trevas. A diferença entre os dois é grande. De fato, sobre um estão postados os anjos de Deus, portadores da luz; e sobre o outro, os anjos de satanás. Um é Senhor de eternidade em eternidade, o outro é príncipe do presente tempo da iniqüidade.
CAPÍTULO 19
O caminho da luz
Este é o caminho da luz: se alguém quer andar no caminho e chegar ao lugar determinado, que se esforce em suas obras. Eis, portanto, o conhecimento que nos foi dado para andar nesse caminho.
Ama aquele que te criou. Teme aquele que te formou. Glorifica aquele que te resgatou da morte. Sê simples de coração e rico de espírito. Não te ligues àqueles que andam no caminho da morte. Odeia tudo o que não é agradável a Deus. Odeia toda hipocrisia.
Não abandones os mandamentos do Senhor. Não te engrandeças a ti mesmo, mas sê humilde em todas as circunstâncias. Não te arrogues glória. Não planejes o mal contra o teu próximo. Não te entregues à insolência.
Não pratiques a prostituição, nem o adultério, nem a pederastia. Não divulgues a palavra de Deus entre pessoas impuras. Não faças diferença entre as pessoas, ao corrigir alguém por sua falta. Sê manso, tranqüilo, respeitando as palavras que ouviste. Não sejas vingativo para com teu irmão.
Não fiques hesitando sobre o que vai ou não acontecer. Não tomes em vão o nome do Senhor. Ama o teu próximo mais do que a ti mesmo. Não mates a criança no seio da mãe, nem logo que ela tiver nascido. Não te descuides de teu filho ou de tua filha. Pelo contrário, dá-lhes instrução desde a infância no temor do Senhor.
Não cobices os bens do teu próximo. Não sejas avarento, não te juntes de coração com os grandes, mas conversa com os justos e pobres. Aceita como boas as coisas que te acontecem, sabendo que nada acontece sem o consentimento de Deus.
Não sejas dúplice no pensar e no falar, porque a duplicidade é armadilha mortal. Sê submisso a teus senhores, com respeito e reverência, como à imagem de Deus. Não dês ordens com rudeza ao teu servo ou à tua serva, pois eles esperam no mesmo Deus que tu, para que não percam o temor de Deus, que está acima de uns e de outros; com efeito, ele não vem chamar a pessoa pela aparência, mas aqueles que o Espírito preparou.
Compartilha tudo com o teu próximo, e não digas que são coisas tuas. Se estais unidos nas coisas incorruptíveis, tanto mais nas coisas corruptíveis. Não sejas loquaz, porque a boca é armadilha mortal. O quanto podes, sê puro com a tua alma.
Não sejas como os que estendem a mão na hora de receber, e a retiram na hora de dar. Ama, como a pupila do teu olho, todo aquele que te anuncia a palavra de Deus.
Lembra-te noite e dia, do dia do julgamento. A cada dia, procura a companhia dos santos. Empenha-te com a pregação, exortando e preocupando-te em salvar uma alma pela palavra, ou então em trabalhar com tuas mãos, para resgatar teus pecados.
Não hesites em dar, nem dês reclamando, pois sabes quem é o verdadeiro remunerador da tua recompensa. Guarda o que recebeste, sem nada acrescentar ou tirar. Odeia totalmente o mal. Julga de modo justo.
Não provoques divisão. Pelo contrário, reconcilia aqueles que brigam entre si. Confessa os teus pecados. Não te apresentes em má consciência para a oração.
CAPÍTULO 20
O caminho da treva
O caminho da treva é tortuoso e cheio de maldições. De fato, em sua totalidade, ele é o caminho da morte eterna nos tormentos. Nele se encontram as coisas que arruínam a alma dos homens: idolatria, insolência, altivez do poder, hipocrisia, duplicidade de coração, adultério, homicídio, rapina, orgulho, transgressão, fraude, maldade, arrogância, feitiçaria, magia, avareza e ausência do temor de Deus. (São) os que perseguem os bons, odeiam a verdade, amam a mentira, ignoram a recompensa da justiça, não se ligam ao bem nem ao julgamento justo, não cuidam da viúva e do órfão, não vigiam para o temor de Deus, mas para o mal, afastam-se da mansidão e da paciência, amam as vaidades, correm atrás da recompensa, não têm misericórdia para com o pobre, recusam ajudar o oprimido, difamam facilmente, ignoram o seu Criador, matam crianças, corrompem a imagem de Deus, não se compadecem do necessitado, não se importam com os atribulados, defendem os ricos, são juízes injustos com os pobres, e, por fim, são pecadores consumados.
CAPÍTULO 21
Conclusão
É bom, portanto, aprender as sentenças do Senhor, que estão escritas, e a elas conformar o comportamento. Com efeito, aquele que as pratica será glorificado no Reino de Deus, mas aquele que escolher o outro (Caminho) perecerá com suas obras. Por isso, existe ressurreição, e por isso existe retribuição. A vós, que sois superiores, peço que aceitem um conselho da minha benevolência: Tendes no meio de vós pessoas para com as quais praticar o bem. Não deixem de o fazer. Está próximo o dia, no qual todas as coisas perecerão com o Maligno. Está próximo o Senhor, justo com a sua retribuição. Peço-vos ainda: sede bons legisladores para vós mesmos, permanecei fiéis conselheiros para vós mesmos, afastai de vós toda hipocrisia. O Deus, que reina sobre o mundo inteiro, vos dê sabedoria, inteligência, ciência, conhecimento de suas decisões, e perseverança. Deixai-vos instruir por Deus, procurando o que o Senhor quer de vós, e praticai-o, para que vos encontreis no dia do julgamento. Se vos recordais do bem, lembrai-vos de mim ao meditar sobre essas coisas. Desse modo, meu desejo e minha vigilância levarão a realizar algum bem. Peço-vos com insistência, como uma graça: enquanto o belo vaso ainda está convosco, não negligencieis nada das vossas coisas, mas buscai-as constantemente e cumpri todos os mandamentos, pois eles são dignos. Eis por que me esforcei em vos escrever, segundo minhas possibilidades. Eu vos saúdo, filhos do amor e da paz. Que o Senhor da glória e de toda graça esteja com vosso espírito.
fonte:http://cocp.veritatis.com.br/index.php/epistola-de-barnabe/
Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb.
Nº 530 – Ano 2006 – Pág. 341.
Em síntese: Maria Madalena é citada cinco vezes nos Evangelhos; não há por que a identificar com uma prostituta. Ocorrem nos Evangelhos quatro mulheres distintas: a pecadora anônima de Lc 7, 36-50, a mulher que acompanhava Jesus e lhe servia com as suas posses (Lc 8, 1-3), a irmã de Marta e Lázaro (Jo 12, 1-12) e a mulher adúltera de Jo 8, 1-11. Nos apócrifos de origem gnóstica e maniquéia (não cristã, porque dualista) aparece Madalena como confidente de Jesus. É desta fonte que alguns autores modernos pretendem desenvolver a figura de Jesus descrita pelos evangelistas. Esta tendência carece de todo fundamento, pois a tradição cristã é diversa no tocante a Madalena após a ressurreição de Jesus.
O romancista Dan Brown, em seu “O Código da Vinci”, focalizou Maria Madalena como pretensa esposa de Jesus e antepassada de uma dinastia de reis da França. Esta notícia, por mais estranha que seja, despertou a curiosidade de muitos leitores, sugerindo assim o aprofundamento de tal temática. É o que será feito nas páginas subseqüentes.
1. Maria Madalena nos Evangelhos
A Madalena dos Evangelhos costuma ser identificada, desde o século VII com a pecadora que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas, e com a irmã de Marta e Lázaro, pois esta ungiu os pés de Jesus com bálsamo. Ver Lc 7, 36-50; Lc 8, 1-3 e Jo 12, 1-11.
Esta identificação que faz de três mulheres uma só, hoje em dia não é aceita pelos melhores exegetas. Vejamos por quê.
1.1. A identificação da mulher de má vida (Lc 7, 36-50) com Madalena (Lc 8, 1-3) carece de base sólida
Eis o que se lê em Lc 8, 2s: “Acompanhavam Jesus os doze e algumas mulheres que ele havia curado de espíritos imundos e de enfermidades: Maria Madalena, da qual haviam saído sete demônios, Joana, mulher de Cuza, mordomo de Herodes, Suzana e muitas outras, que lhe ministravam com seus bens”.
Detenhamo-nos sobre Maria Madalena.
O nome “Maria” era muito comum no povo de Israel; tenha-se em visto Jo 19, 25, onde se lê que, dentre quatro mulheres, três se chamavam Maria. A predileção por tal nome talvez se deva ao fato de que a irmã de Moisés se chamava Maria (cf. Ex 15, 20), tornando célebre o respectivo nome.
Daí o uso de um aposto para diferenciar as Marias; esse aposto podia ser o lugar de origem, que, no caso, era Mágdala, povoado situado à margem ocidental do lago da Galiléia, 5 km ao norte da cidade de Tiberíades. É assim que se explica o nome “Maria Madalena”.
O fato de ter sido possuída por sete demônios não quer dizer que fosse necessariamente uma grande pecadora. Nos Evangelhos, a filha da mulher siro-fenícia em Mc 7, 29s era possessa, mas pode-se crer, pelo contexto, que era doente; o mesmo se diga do jovem possesso “desde a infância” (Mc 9, 21): a criança não tem a responsabilidade necessária para cometer pecado grave (como se crê). Sabe-se, de outro lado, que as doenças eram atribuídas aos demônios (cf. 2Cr 16, 12); “sete demônios” (número de plenitude) significariam doença muito grave. Na base destas considerações pode-se dizer que Maria Madalena não era a pecadora que a posteridade imaginou.
1.2. As demais ocorrências de Maria Madalena nos Evangelhos
Em quatro outras passagens aparece Maria Madalena nos Evangelhos, a saber:
Mc 15, 40: Madalena, com outras mulheres, contemplava Jesus atormentado na Cruz.
Mc 15, 47: “Maria de Mágdala e Maria, mãe de José, observavam onde depositaram Jesus descido da Cruz”.
Mc 16, 1: “Passado o sábado, Maria de Mágdala, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para embalsamar Jesus”.
Jo 20, 1-18: No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã. Recebeu então de Jesus a ordem de ir anunciar aos Apóstolos a Boa-Nova da Ressurreição. “Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: ‘Vi o Senhor’”.
Como se percebe, Madalena aparece nos Evangelhos em situações que lhe merecem honra. Como então pôde ser desfigurada em prostituta?
1.3. Os Equívocos
O aviltamento da figura de Maria Madalena começa pela falsa identificação com a mulher de má vida apresentada em Lc 7, 36-50. Ter sete demônios parecia indicar grave situação de pecadora. Quando Jesus a terá libertado desses maus espíritos? – A resposta parecia estar em Lc 7: a mulher caiu em prantos aos pés de Jesus, arrependida de seus pecados e recebeu do Senhor o perdão; este episódio ocorrido em casa de Simão o fariseu é colocado por Lucas logo antes da apresentação de Madalena em Lc 8; daí a fusão das duas mulheres na imagem de uma pecadora agraciada chamada Maria Madalena.
Ora tal fusão é gratuita S. Lucas fez questão de guardar o anonimato da mulher de má vida. Seja respeitada a delicadeza do evangelista!
A seguir, visto que em Jo 12, 1-12 aparece uma mulher chamada Maria a ungir os pés de Jesus com bálsamo, identificaram-na com Maria Madalena, de modo que a irmã de Marta e Lázaro passou a ser a pecadora convertida Maria de Mágdala. Todavia verifica-se que tal identificação é artificial, pois a pecadora de Lc 7 banha os pés de Jesus com lágrimas e só depois disto os unge com bálsamo, ao passo que a irmã de Lázaro não chora, mas aplica diretamente os seus perfumes.
Por não levar em conta tais pormenores, vários autores chegaram a identificar Madalena ainda com uma terceira mulher, ou seja, com a pecadora adúltera de Jo 7, 53 e mais… com a samaritana de seis maridos ocorrente em 4, 17s…!
Por conseguinte tem razão a moderna exegese ao reabilitar Maria Madalena, isentando-a da nódoa de prostituta.
Passemos agora ao estudo da tradição relativa a Maria Madalena.
2. Maria Madalena na Tradição
Distinguiremos a tradição cristã e a tradição gnóstica.
2.1. Tradição cristã
Eis o que refere o famoso hagiógrafo Butler em sua obra “Vida dos Santos”, t, VII (22 de julho):
“Segundo a tradição oriental, Maria Madalena, depois de Pentecostes, acompanhou Nossa Senhora e S. João até Éfeso, onde veio a falecer e foi enterrada. O peregrino inglês S. Vilibaldo teve a oportunidade de ver, lá, o seu túmulo, em meados do século VIII. Todavia, de acordo com a tradição da França, no Martirológio Romano, e conforme a concessão de diversas festas locais, ela, junto com Lázaro, Marta e outros, evangelizaram a Provença. Os últimos trinta anos de sua vida, segundo se afirma, ela os passou numa gruta formada por rochas, La Sainte Baume, no alto dos Alpes Marítimos, sendo transportada milagrosamente, instantes antes da morte, para a capela de S. Maximino. Ela recebeu os últimos sacramentos das mãos deste santo, sendo por ele enterrada”.
A referência mais antiga que se conhece a respeito da vinda desses cristãos orientais até a França é do século XI, em conexão com as relíquias de S. Maria Madalena, reivindicadas pela abadia de Vézelay, na Burgúndia. A formulação da história parece ter-se espalhado pela Provença somente durante o século XIII. A partir de 1279, as relíquias de Maria Madalena, segundo consta, estão sob a custódia dos monges de Vézelay e dos frades dominicanos de Saint-Maximin, sendo ainda muito popular a peregrinação que se faz até o túmulo da Igreja desses últimos e à gruta de La Sainte Baume. Todavia, a pesquisa, especialmente por parte de Mons. Duchesne, demonstra, cada vez mais claramente, que nem as relíquias nem a história da viagem dos amigos de Nosso Senhor até Marselha podem ser consideradas autênticas. Apesar da defesa que fazem os que estão piedosamente interessados em favor da crença local, não se pode pôr em duvida que toda a história não passa de pura ficção.
Entre os outros contos curiosos e sem fundamento sobre a santa, existentes na Idade Média, está aquele que afirma que ela era noiva de S. João Evangelista, quando Cristo o chamou para ser seu discípulo. “Com isso, ela ficou indignada por ver seu noivo arrebatado dela e partiu entregando-se a toda sorte de deleites. Mas, porque não convinha que o chamamento de S. João servisse de ocasião para a sua condenação, Nosso Senhor, em misericórdia, a converteu à penitência, e, por tê-la privado do supremo deleite da carne, recompensou-a com o supremo deleite espiritual, acima de todos os demais, isto é, o amor a Deus (Legenda Áurea)”.
2.2. Tradição gnóstica
Em PR tem sido publicadas algumas explanações do que é o gnosticismo. É um sistema dualista não cristão, pois repudia a matéria, que, segundo o Cristianismo, foi criada por Deus. Propagava suas idéias por meio de escritos semelhantes aos livros da Bíblia, de modo que são chamados escritos apócrifos gnósticos.
Dentre esses escritos destaca-se, no nosso caso, a Pistis Sophia (Fé Sabedoria), obra na qual Madalena desempenha papel importante. Com efeito, de 46 questões 39 dão o predomínio às perguntas e aos dizeres de Madalena. É a interlocutora privilegiada do Senhor, dita “bem-aventurada, herdeira da luz, Maria pura e cheia do Espírito…”. Interroga Jesus com firmeza e segurança, levando Jesus a responder-lhe com grande alegria. Prostra-se aos pés de Jesus, que ela adora e oscula. Jesus proclama: “Maria Madalena e João o Virgem serão superiores a todos os discípulos”.
O filósofo Celso (século II) fala dos “discípulos de Mariamme”, tal é a importância que a ela cabe.
No Evangelho segundo Filipe (séc. III/IV “Madalena é a mais importante das três mulheres” que caminhavam sempre com Ele: Maria, a mãe de Jesus, outra Maria, irmã de Maria Ssma., e Madalena, pois esta é, para Jesus, irmã, mãe e companheira).
Existe o Evangelho de Maria (Madalena) datado provavelmente do século II. Aí Madalena incentiva os Apóstolos a pôr em prática as palavras do Senhor e lembra-lhes a assistência permanente que Ele lhes prometeu, Pedro pede-lhe que dê a conhecer aos Apóstolos as palavras de Cristo. Então relata ela uma longa visão de Jesus, que lhe disse: “Bendita és tu, porque não hesitaste quando me viste”. Perante André e Pedro, pouco dispostos a crer, Levi toma a defesa de Madalena: “Se o Senhor a julgou digna, quem somos nós para rejeitar? O Salvador, sem dúvida, a conheceu muito bem. Eis por que Ele amou a ela mais do que a nós”. Maria Madalena aparece assim como a mediadora e mensageira da doutrina gnóstica: ela é colocada acima dos Apóstolos.
Como se vê, o ponto de vista é totalmente diverso do da literatura apócrifa cristã, que conserva a hierarquia “Jesus – Apóstolos”, como também difere das estórias que se contavam sobre Madalena após a ressurreição de Jesus.
Merece atenção ainda a
2.3. Tradição maniquéia
O maniqueísmo é outro sistema dualista, que os cristãos tiveram de enfrentar nos seus primeiros séculos.
Apresenta o Salmo de Heráclito, comentário poético de Jo 20, 17:
“Maria, Maria, reconhece-me e não me detenhas. Prende as lágrimas dos teus olhos e reconhece que eu sou o teu Mestre. Só te peço que não me detenhas, pois ainda não vi a face do meu Pai”. Jesus confia-lhe a missão de reunir seus Apóstolos, “órfãos errantes”. Ao que Maria respondeu: “Rabi, meu Mestre, cumprirei tuas ordens com alegria e de todo o meu coração”. Glória e vitória à alma da bem-aventurada Maria. “O espírito da Sabedoria escolheu Maria”.
Numerosos outros salmos maniqueus aparecem dedicados a Madalena.
Resta investigar as razões pelas quais Maria Madalena desempenhou papel tão saliente nesses ambientes gnósticos e maniqueus. Será tarefa árdua, pois não há muitos pontos de referência para o pesquisador nesse campo de trabalho.
2.4. Outras lendas
Existem outras lendas que desenvolveram o pensamento gnóstico a respeito de Jesus e Maria Madalena.
Com efeito, uma dessas lendas afirma que Jesus se casou com Madalena por ocasião das bodas de Cana (cf. Jo 2, 1-12), quando Jesus transformou a água em vinho – o que é inaceitável, visto que Jesus e o noivo se distinguem claramente um do outro nesse episódio.
A insistência dessa corrente inspirada pelo gnosticismo na tese de que Jesus era casado, se explica, segundo autores modernos, pelo fato de que os judeus não podiam conceber que um homem sadio e normal não se casasse; por conseguinte terão feito de Jesus o esposo de Madalena aos trinta anos ou no começo de sua vida pública. Não é necessário demonstrar longamente quão inconsistentes são tais proposições.
Mais ainda: a lenda diz que Madalena se retirou para o Sul da França levando consigo dois preciosos valores:
- o Santo Graal ou o cálice que Jesus terá usado na última ceia ou, segundo outra versão, o cálice que recolheu as gotas de sangue de Jesus pendente da Cruz. As divergências dessas estórias já contribuem para insinuar o seu caráter lendário;
- o filho que Madalena terá tido com Jesus e que se terá tornado o fundador de uma dinastia de reis da França. – Vale aqui mais uma vez registrar o caráter fantasioso e irreal dessa narrativa.
FONTE:CLEOFAS

